Exílio: das narrativas bíblicas à escola do século XXI

Ana Kapczynski é Bacharela e Licenciada em Filosofia (IFIBE, 2010; UPF, 2014), Mestra em Educação (UPF, 2017), pesquisadora em políticas educacionais, professora de Educação Infantil. Email: anakapczynski@gmail.com

Há mais de dois mil anos, as narrativas bíblicas nos lembram sobre o exílio dos povos que saíam em busca da Terra Prometida. Hoje a História retoma similar experiência, sem que tenhamos nos dado conta de seus impactos à educação e ao trabalho docente de acolher pessoas estranhas que trazem na bagagem culturas e idiomas distintos. No século XX, a migração era vista como uma realidade dos grandes centros mundiais, como Estados Unidos e Europa. No entanto, nos últimos anos, esse fenômeno se intensificou, atingiu escala mundial e hoje faz parte do cotidiano escolar, incluindo Passo Fundo. Forçosamente, a humanidade retorna à Torre de Babel para reencontrar a linguagem comum e aprender a dialogar com as diferenças.

Esse tema é complexo e merece pesquisas aprofundadas. Por ora, trataremos apenas de dois conceitos. O primeiro procede dos estudos de Bauman (2017), o conceito de “pânico moral”, e o segundo, das reflexões de Nussbaum (2015), a ideia de formar “cidadãos do mundo”. “Pânico moral” significa sentimento de medo e insegurança que leva grande número de pessoas a acreditar que algum mal esteja ameaçando o bem-estar de uma sociedade. Esse sentimento vem sendo compartilhado diante da crise migratória no século XXI pela aversão e desconfiança atribuídas aos/às refugiados/as. Depois de vencer as barreiras burocráticas das fronteiras territoriais e sobreviver às travessias sob condições hostis e precárias em botes abarrotados que não oferecem as mínimas condições de segurança, muros apressadamente erguidos, cercas de arame farpado, campos de concentração superlotados e não raras vezes deixando crianças afogadas pelo caminho, a tragédia dos/as migrantes persiste na fadiga da cegueira moral, materializada na indiferença insensível ou na injúria do exílio. A indiferença resulta da crença de que a crise seja um problema institucional a ser resolvido na esfera governamental e por isso não nos afeta. Já a injúria do exílio é mais perversa porque instiga o insulto e legitima a xenofobia, o ódio ao estrangeiro, faz acreditar que essas pessoas sejam problemáticas, irritantes, indesejadas e inadmissíveis.

Bauman fala que as mídias sensacionalistas se valem do pânico moral para disseminar o ódio aos contingentes de refugiados/as por meio da criminalização das vítimas. De modo dissimulado, fazem-se conotações da crise migratória com suspeitas de organização terrorista de ter de aceitar pessoas que eram localmente inúteis em sua pátria de origem, não empregáveis ou desqualificadas ao trabalho e expulsas de suas terras em razão de disputas pelo poder. Em situação de vulnerabilidade, essas pessoas tornam-se alvos fáceis de exploração de mão de obra barata nos países que as recebem, levando as comunidades locais a responsabilizá-las pelo aumento do desemprego e pela precarização das condições de trabalho. Em busca de asilo, migrantes tornam-se habitantes do “não lugar” em decorrência dos empecilhos postos à regularização de sua estadia em outros lugares. Já não pertencem mais à pátria de origem e a nova pátria tende a lhes ser hostil.

Como há indícios de que a migração em massa perdure ainda por muito tempo em virtude de crises políticas e econômicas, guerras, assassinatos em massa e regimes ditatoriais, a escola precisa preparar-se para atender a essa exigência social. Ciente de que a migração é fato no século XXI e em defesa das humanidades na formação dos sujeitos democráticos, Nussbaum sugere que a escola vise formar “cidadãos do mundo”. Física ou virtualmente interconectada, a humanidade gera problemas amplos e complexos que transcendem fronteiras geográficas, linguísticas e culturais. As questões econômicas, ambientais, religiosas e políticas que precisamos resolver têm alcance global e requerem igualmente respostas globais, pois as relações são globalizadas. A migração não se limita ao exílio de refugiados/as, mas faz parte de um novo contexto de mobilidade social que induz a conviver com diferentes culturas, a conhecer e intervir em diferentes realidades. Nesse sentido, faz-se necessário desenvolver nos/as estudantes a capacidade de se perceberem como membros de uma nação heterogênea em termos étnicos, nacionais, religiosos, de gênero, e a inteirar-se um pouco da história e da natureza dos diversos grupos que habitam o mundo, estimular uma curiosidade respeitosa e sensível com as diferenças, identificar necessidades e interesses humanos compartilhados e propor soluções a problemas comuns. A crise migratória instiga a olhar para as classes estudantis como campo diverso, o que exigirá cada vez mais atualização dos conhecimentos e práticas docentes.

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