Em tempos de obscurantismo, o professor é o inimigo

Débora de Araujo Soares é professora da rede municipal de ensino, licenciada em Pedagogia e Letras pela UPF, Mestre em Letras pela PUCRS

Depois de mais de 20 anos de dedicação ao magistério, tenho me deparado, nos últimos tempos, com uma situação incomum, algo que não esperava vivenciar nesta etapa da minha carreira. Vivemos um momento de retrocesso na sociedade brasileira, algo que atinge particularmente a educação. O colapso político no qual estamos imersos atinge, cada vez mais, os espaços escolares, uma vez que paira um clima de perseguição e ameaça aos professores.

O movimento “Escola Sem Partido” criou no imaginário popular a ideia de que a escola pode corromper a inocência das crianças, cenário em que o professor seria o agente de tal corrupção. Promove-se a desqualificação de professores, escolas e, também, de referências teóricas do campo da educação. Ao se usar termos como “doutrinação ideológica” e “ideologia de gênero”, de forma ampla e genérica, propaga-se a figura do professor como uma ameaça. O profissional que passa anos se qualificando para trabalhar com crianças e adolescentes agora é o inimigo, como se estivesse imbuído de uma missão para acabar com a família e os valores. Professores acabam sendo acusados de doutrinar os alunos, o que ocorreria de modo generalizado, segundo essa “paranoia esquizofrênica” que foi criada.

A invenção da prática de ideologia de gênero nas escolas também gerou suspeição sobre os docentes, mais uma vez desqualificando seu importante papel na sociedade. Esse termo tem gerado tamanho medo entre as famílias: o que se viu nos últimos tempos foi uma verdadeira caça às bruxas contra uma ideologia que não existe no ambiente escolar. Os grupos que utilizam esse termo buscam, em última instância, demonizar o trabalho com a questão de gênero na sala de aula. Aliás, gênero passou a ser visto como “algo que não se deve nomear”, passando de tabu a bicho-papão. O medo, pânico em muitos casos, é que os professores estejam ensinando sexo para crianças pequenas, incentivando-as a escolher se desejam ser menino ou menina.

A realidade é que, de uma hora para outra, as pessoas passaram a acreditar que isso de fato acontece nas escolas. A crença em tais absurdos, alimentados em grande parte pela disseminação de fake news, fez da vida dos professores um verdadeiro inferno, com pais temerosos de que algo inapropriado pudesse ser ensinado aos seus filhos na escola. Esse cenário de loucura generalizada acabou impedindo que os docentes pudessem discutir gênero da maneira que deve acontecer, ou seja, permitindo que as pessoas de diferentes orientações sexuais se sintam representadas, bem como trazendo para a sala de aula a representação de famílias de diferentes configurações, algo comum hoje em dia. Em vez disso, professores foram difamados por incentivar as crianças a se tornarem homossexuais, como se a orientação sexual pudesse ser ensinada. O desejo parece ser negar a complexa realidade dos alunos, a qual é permeada também pelas relações de gênero, e a pluralidade de ideias, impedindo o professor de exercer seu papel de educador. Se aceitarmos isso, como poderemos ajudar nossos alunos a compreender a realidade em que vivem e atuar sobre ela? Que cidadãos formaremos? Sujeitos que sabem ler, escrever e fazer contas, mas incapazes de refletir sobre como chegaram a ser quem são, ou mesmo de exercer a tolerância e aceitar o diferente?

A relação educativa deve ser uma relação de confiança, e isso é premissa básica no processo educativo. Quando essa relação é quebrada, como é possível promover uma educação de qualidade?

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