Zona de(s)conforto e outras reflexões

Liane Kirinus é professora de filosofia e ensino religioso na rede pública municipal.

Sou professora há muito, muito tempo. Penso que ser professora é ficar o tempo todo em suspense, em atenção …. Há alguma coisa nova para aprender e eu preciso aprender.

E porque preciso, quero.

Há sempre uma dose de má vontade, acomodação e preguiça. Medo talvez … essa coisa nova vai me tirar da minha zona de conforto. Não sei vocês, queridos colegas. Mas tenho feito esse exercício de sair do conforto. Para falar bem a verdade, há pouco conforto na vida de uma professora.

Coisas singelas, como passeio de moto com seu namorado ou ouvir um aluno tocando violão, devem ser muito bem degustadas porque a alegria de uma semana inteira pode se reduzir a isso.

Aprender. É isso que nós ensinamos!

Não há uma verdade pronta que é só a gente decorar. São construções humanas colocadas sobre outras construções humanas e sobre outras …. O saber é uma arqueologia cósmica. Os humanos não se fartam de dar os mais loucos voos, que trazem novos saberes, mudam enfoques e horizontes.

É uma armadilha achar que eu já sei. Ou pior: que eu sei e você não sabe! Essa é uma relação que educador nenhum pode ter. A ideia de que o professor tem que moldar o aluno, o aluno é argila crua e o professor é o artista ainda resiste entre educadores e cientistas que pensam a educação. Acontece, sim, moldarmos nossos jovens de acordo com visões de mundo consagradas. Mas também vamos sendo desafiados por eles e nos obrigam a rever nossas certezas.

São momentos de angústia e de crescimento. Tem de se auto-observar e ver que aconteceu e dar meia volta.  É sempre uma construção, e este é o maior desafio: não doutrinar, mas, sim, provocar o pensamento, provocar os sentimentos…

Por que sou professora? Porque sempre que penso em mundo melhor, acho que isso passa pela educação. Tem a ver com leitura de mundo, autoconsciência e consciência da presença do outro, e é nesse encontro que se constrói o mundo. A cada dia, a cada instante.

Para além do encontro humano entre mim e um outro, não há mais nada, ou quase nada (porque o que quer que seja é no nível molecular, e esse nível ainda nos falta entender melhor). O mundo concreto que construímos, como civilização, se dá em cima desse substrato molecular no momento em que dois humanos estabelecem uma relação.

Ali o mundo começa, começa o trabalho, os conceitos e tudo o mais … e a educação. Por isso, para a professora, o outro não é inimigo.  Isso não faria nenhum sentido (como aquela ideia absurda que nem Maquiavel concordaria: “filmem seus professores e denunciem”). O Outro é meu parceiro, é meu comparsa, é meu camarada, é “parceria”, o termo é da gurizada.

Se eles se organizam para fazer jornal, ou recolher donativos, eles chamam seus professores para parceria. De onde veio a ideia?  Por que isso interessa? Ninguém é dono de uma ideia. É muito estimulante quando, num debate de aula, dois ou três alunos estão concluindo a mesma coisa, chegam a discutir sobre um tal de roubo: “você roubou a minha ideia”. Eu adoro isso, ali estão dois ou três humanos numa tal parceria que chegam a sincronizar seus pensamentos… Claro que os professores falaram coisas como “desigualdades sociais”, “frio intenso coloca famílias inteiras em risco”, essas coisas são as notícias de jornal …

Obviamente, há jornal de todo tipo e professor de todo tipo. E também gurizada de todo tipo. Há professores cercados de gurizada medonha, focada nas drogas e violência. Essa é uma questão a ser analisada com muita calma e profundidade: como um lugar de encontro entre um eu humano com outros eus humanos, mediados por humanos, poderia se converter nisso, um ambiente de risco, um lugar “quase violento”. Não me aprofundarei nesse ponto agora, mas quero sugerir algumas pistas para provocar uma reflexão.

Penso que precisamos rever e nos posicionar sobre a ideia de “educação voltada para cidadania e mercado de trabalho”. Concordo com cidadania, é onde temos de investir todos os nossos esforços. Porém, mercado de trabalho é um mecanismo a serviço do sistema capitalista industrial e, como tal, está perpassado de alienação e de submissão a valores que não podemos mais defender.

É por isso que estamos adoecidos, docentes e discentes, por causa dessa contradição. Educar para a vida é educar para o amor, o respeito, a criatividade, o uso amplo dos recursos pessoais de cada pessoa, e isso é educar para a cidadania, uma cidade nova, um mundo novo pode emergir através de uma educação assim.

Educar para o trabalho é a educação que temos: fragmentada, abstrata, desconectada dos interesses e desejos das pessoas, compartimentada em disciplinas, salas cheias, classes enfileiradas, um que ensina, muitos que não estão nem aí…. É o oposto daquilo que realmente queremos.

Não é dando as costas ao que está acontecendo ou, ao contrário, imaginando uma revolução radical. É preciso trazer essas questões à clara luz do sol. Recorrendo a Platão, libertar-se das correntes e sair de dentro da caverna. Eu acho que a hora é esta e que nós estamos prontas e prontos para dar esse passo.

Começa pequeno, cada um move a sua perninha, uma depois da outra, com calma e convicção. Não vai ficar uma maravilha logo de cara, mas já dizia o poeta “o caminho se faz caminhando”.

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