A meritocracia é uma falácia no Brasil

Eduardo Albuquerque é Professor da rede pública e privada, representante dos professores municipais de Passo Fundo, Mestre em Educação na linha de pesquisa Fundamentos da Educação

A meritocracia é uma ideia que ganha espaço no mundo corporativo e avança para o meio acadêmico de uma forma acelerada, respaldada pelos baixos desempenhos das redes de ensino público e privado. A origem etimológica da palavra meritocracia vem do latim, meritum, que significa “mérito”, unida ao sufixo grego cracía, que quer dizer “poder”. Assim, o significado literal de meritocracia seria “poder do mérito”.  Em termos históricos, os primeiros indícios de um mecanismo semelhante remontam à Antiguidade, na China. Confúcio e HanFei são dois pensadores que propuseram um sistema próximo ao meritocrático.  No campo filosófico e sociológico, a expressão vem carregada de sentidos antagônicos que refletem diferentes olhares da mesma sociedade, podendo ser ela positiva ou negativa. De acordo com Barbosa (2006), ela é definida como um conjunto de valores que postula que as posições dos indivíduos na sociedade devem ser consequência do mérito de cada um. Segundo Barbosa (2006), a meritocracia pode ser compreendida em duas dimensões distintas: positiva ou negativa.

No Brasil, o tema frequentemente vem à tona, seja no mudo corporativo privado, seja no estatal. Empresas privadas apostam na meritocracia para maximizar seus lucros. Na área pública, gestores investem na ideia como tábua de salvação para seus problemas crônicos. Na educação, o tema aflora com frequência como possível solução para os problemas educacionais do país. Redes públicas e privadas investem em mecanismos de bonificação e premiação como forma de motivação aos docentes. Ainda na esfera educacional, perpetua-se um discurso meritocrático que insinua que todos os alunos, independentemente de onde tenham nascido ou de que escolas tenham frequentado, têm as mesmas possibilidades de ascensão social e econômica. O diferencial estaria, portanto, tão somente baseado na vontade e determinação do indivíduo invocando-se como justificativa o discurso do self-mademan, que sustenta a ideia de que qualquer pessoa pode alcançar grande sucesso econômico e social independentemente de ter nascido pobre ou em desvantagens de condições, sem que tenha herdado bens familiares, sem conexões sociais ou qualquer outro privilégio.

Essa perspectiva dialética na qual o indivíduo é capaz de superar suas limitações sociais e familiares e atingir sucesso e reconhecimento tem sido explorada intencionalmente pela classe dominante para a manutenção e perpetuação de seus privilégios.  Entretanto, esse discurso vem sendo desconstruído ao logo do tempo pelos estudos sociológicos e mais recentemente pela neurociência, que vem tratando da questão sob um olhar diferenciado da sociologia e da filosofia. Segundo o professor da Unifesp e Pós-doutor em Neurociência e Educação pela USP Guilherme Brockington, a meritocracia não passa de uma falácia sob o ponto de vista da ciência. Segundo ele, o que se sabe hoje, através de estudos da neurociência, é que, para o ser humano aprender, é necessária uma interação do ser biológico, do ser psicológico e do ambiente sociocultural. Uma criança que não se alimenta corretamente, que não tem um ambiente familiar adequado e que não tem acesso a bens culturais, dificilmente aprenderá alguma coisa e, consequentemente, suas possibilidades de fracasso escolar serão bem maiores.

O que a sociologia, a psicologia e, agora, a neurociência dizem não é novidade alguma para os professores, principalmente aqueles que dividem sua jornada de trabalho entre escolas públicas e privadas e percebem no dia a dia a diferença que é nascer em um bom bairro, frequentar boas escolas, dispor de segurança, crescer em uma família relativamente organizada em um ambiente tranquilo, que oferece as condições psicológicas para uma boa performance escolar, com acesso a bens culturais como cinema, teatro, bibliotecas e informatização. Ao contrário daqueles que nascem em bairros sem condições básicas, convivendo desde cedo com a insegurança e a violência, em escolas sem qualidade, com famílias desestruturadas e sem acesso a bens culturais, tornando desleal a competição da qual são instigados a participar. Nesse abismo social existente no Brasil, a meritocracia não passa de uma boa justificativa para aplacar a culpa das classes mais abastadas.

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